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sábado, 20 de outubro de 2012

#Livro | Mal Intencionados


E é com imensa alegria que eu venho aqui apresentar as minhas impressões sobre o primeiro livro que li vindo de uma parceria. A autora, Geyme Lechner Mannes, me surpreendeu ao entrar em contato comigo para que fizéssemos uma parceria. Eu já tinha mostrado interesse no livro, mas não o encontrei para compra, então ela ofereceu um exemplar para mim e eu topei lê-lo e depois "resenhá-lo" (entre aspas mesmo, porque não gosto da palavra resenha, prefiro dizer "impressões"). 

Posso dizer, de antemão e livre de puxa-saquismo, que este foi um livro que me cativou desde o primeiro momento que li a sinopse. Eu tinha uma determinada expectativa a respeito dele, principalmente pela carga emotiva e por todo o drama que parecia carregar, por isso fiquei ainda mais surpresa por constatar que a minha expectativa estava ali presente, mas foi superada. Preciso dizer também que resumir este livro foi uma tarefa bastante complicada, pois além de ser difícil falar sobre o enredo sem dar spoilers, muita coisa relevante acontece durante a trama.

"Mal Intencionados" conta a história de Ana, Tomás e Damião, pessoas que tiveram vidas e criações diferentes, mas que na realidade nada mais são do que espelhos e vítimas de suas próprias vidas sofridas e complicadas. A narrativa é em terceira pessoa e dividi-se em partes, passando pelo ponto de vista dos três personagens supracitados, como se o narrador estivesse acompanhando-os em diferentes partes de suas vidas, individualmente.

Ana é uma mulher destemida, que sempre tenta ver o lado bom das coisas, mesmo quando elas estão em um alto nível de complicação, fazendo com que ela não só feche os olhos para alguns problemas à sua frente, mas que também seja um pouco ingênua em certos pontos. Quando ela quer alguma coisa, corre atrás de todas as formas e até se torna obsessiva. Teve uma vida pomposa quando bebê, mas perdeu tudo quando o seu pai foi embora de casa por causa da falência de seus bens. Ela foi criada a vida toda pela mãe, Agnes, e quase não tem lembranças do pai. Talvez por essa falta de ter um homem mais velho para lhe proteger e lhe dar carinho, que anos mais tarde, aos 9 anos, ela se apaixona por Antônio, seu vizinho mais velho, que tem a idade para ser seu pai. Aos 13 anos, quando sua sexualidade está mais aflorada, ela seduz Antônio e os dois começam uma espécie de caso. Ana muda o seu comportamento, tornando-se quase uma mulher em um corpo pouco desenvolvido. Aos 14 anos, ela dá luz a Tomás e casa-se com Antônio. 

Tomás é um garoto franzino, nasceu com problemas de saúde e foi apelido de "filho de rato", pois era muito estranho e pequeno. Justamente por ter uma saúde debilitada, ele criou um laço super dependente e intenso com a mãe e isso, conforme ele se desenvolve, acaba tornando-se um amor obsessivo e muito além do que é considerado fraternal. Ele tem, segundo o que a psicologia classifica, Complexo de Édipo, conceito que explica o amor extremo de um filho por sua mãe e ódio pelo seu pai. Tomás odeia o pai de todas as formas, ele chega até a sentir nojo pelo seu gerador, o garoto simplesmente faz da vida do pai um inferno e diz, com todas as letras, que no seu reino só existe um lugar para o rei e o rei é ele, portanto, seu pai deve ser expulso do reino de qualquer forma. E é isso que acontece. Antônio vai embora por não aguentar mais a hostilidade do filho e a "cegueira" de sua mulher quanto a isso, pois ela é super protetora e sempre passa a mão na cabeça do filho, mesmo quando este está errado. Para Tomás sua vida não poderia estar mais feliz, já que agora está só com a mãe e poderá, quem sabe num futuro próximo, até casar-se com ela. Mas toda essa felicidade acaba quando Damião, seu novo padrasto, chega para usurpar seu trono.

Damião é o que podemos considerar um ogro: homem grande, grosso, estúpido e homofóbico. Cresceu dentro de um lar onde todos o menosprezavam e o tratavam como um ser inferior, por isso não faz ideia de quão forte pode ser. Sua mãe sonhava em ter um filho religioso, então querendo ganhar a atenção e o amor pelo menos uma vez, ele vira ajudante do padre de uma igreja de sua região. Este padre, por um lado, não tinha lá suas boas intenções e abusou diversas vezes de Damião, sempre alegando que aquilo era algo sagrado e significava amor. Damião viu, pela primeira vez, que podia contar com a ajuda de alguém, o padre parecia ser o seu único amigo, desta forma, mesmo sentindo que o que fazia não era certo, ele se permitia ser abusado. Já crescido e sem a companhia do padre, ele virou, em poucas palavras, um abusador. Fugiu várias vezes de cidades por ter sido acusado de atacar e abusar de algum garoto. Ele é cheio de conflitos e não consegue compreender a si mesmo, sendo assim, faz com os outros tudo o que um dia fizeram com ele. É um ser contraditório, que não gosta de gays, mesmo gostando de ter relações sexuais com garotos. Ao mesmo tempo que ele quer valorizar uma boa moral, ele faz tudo ao inverso.

Os personagens principais têm suas histórias de vidas bem definidas e comportam-sem do início ao fim de acordo com a proposta do livro. Alguns personagens secundários também são importantes e responsáveis por determinadas mudanças nos outros personagens. Este é o caso de Antônio, já citado, e Maria Molambo, uma garota pela qual Tomás irá se apaixonar e mudar de comportamento, deixando um pouco de lado aquele amor obsessivo pela mãe. É por causa de Molambo que ele vira um garoto melhor.

A realidade no livro é despida, descrita de uma forma nua e crua, totalmente direta. Os personagens são tão reais que você certamente pode encontrá-los em algum lugar da sua cidade. Não são pessoas idealizadas, mascaradas da realidade, clichês demais, para que você se sinta entediado com eles. Pelo contrário, eles trazem sensações diversas. Algumas vezes você sente compaixão por eles, por tudo o que eles passaram de ruim, e em outras vezes você quer que eles paguem por todo o mal que causaram. Quando vemos a relação de Ana e Tomás, por exemplo, é impossível não pensar em uma maneira de melhorar o que foi negligenciado o tempo todo, é como se você quisesse consertar a situação daqueles pobres personagens.

Geyme conseguiu reunir maravilhosamente bem, em uma única história, vários assuntos polêmicos e de uma forma que foge do que já é esperado. Enquanto lemos, não sentimos aquela sensação de que o autor se estende na polêmica para surtir um efeito provocador, de uma forma que você sente que ele está forçando demais e desnecessariamente. Em "Mal Intencionados" isso não acontece. A polêmica se mistura com os personagens de tal forma, que parece algo comum - e é, na verdade, a polêmica só está nos olhos daqueles que não querem discutir esses assuntos por bobagem. Reunir conteúdos como pedofilia, pederastia, fanatismo religioso, amor obsessivo, homofobia e muitos outros, não é uma tarefa fácil. Mas Geyme fez a lição de casa e conseguiu. Aliás, ela escreve de um jeito tão gostoso de acompanhar e constrói a personalidade dos personagens tão bem, que a leitura flui sem dificuldade alguma. Gostei bastante da forma como ela narra e descreve. Simples, forte e ao ponto.

O psicológico dos personagens foi a parte mais bem estruturada no livro, dá até para fazer uma espécie de análise psicológica profunda deles, parece que você está em uma sala de terapia tentando compreender os motivos que levam uma pessoa a fazer escolhas erradas, levando em consideração suas vidas e tudo o mais, pois muitas de nossas escolhas são influenciadas por todo o histórico de nossa vida. Isso acontece porque é impossível não analisar a conduta, o comportamento, as virtudes e a moral como um todo. Outra coisa muito bem construída foi o pano de fundo histórico, há até uma contextualização com alguns fatos ocorridos no Brasil, como o crescimento da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), o impeachment de Collor e outros assuntos.

O livro em si, com sua história, linguagem, personagens e envolvimento, não peca em momento algum, o que deixou a desejar mesmo foi a revisão do texto. Muitas palavras precisando de acentos, uma e outra colocada no lugar errado ou com um errinho de ortografia. Mas isso foi um problema enorme por parte da editora, que além de ter feito um serviço muito fraco de revisão, agiu de má fé e fez um trabalho ruim de impressão. O meu exemplar mesmo veio com algumas páginas faltando. Geyme publicou seu livro de forma independente, contratou uma editora para que fizesse todo o trabalho "material" (diagramação, revisão e essas coisas), mas na hora de receber os livros, recebeu vários exemplares com páginas faltando, letras manchadas, folhas menores do que outras e muitos outros problemas. É triste ver que esse pode ser o preço a pagar por querer publicar um sonho.

Não é qualquer um que pode ler este livro. Eu recomendaria para pessoas com a mente aberta e que têm o gosto por novas discussões, desconsiderando preconceitos e algo do tipo. 

Abaixo eu transcrevo o trecho que eu achei mais significante de todo o livro, pois serve para diversos momentos da nossa vida:

"... depois da ignorância, o excesso é maior pecado da humanidade! Creia, mas não ao ponto de habitar o reino das mulas. Creia, mas não ao ponto de transformar sua fé em circo, sem perceber que você é o bobo do evento..." - Página 81

Pois é! E eu ainda acrescento: não deixe que as suas crenças se tornem absolutas, de forma que você não aceite e nem respeite pensamentos contrários aos seus. Ninguém é um todo, ninguém é o senhor da razão. Segure seu argumento sobre as coisas, mas acima de tudo saiba respeitar os outros e não faça piada quando alguém discorda de você. Só uma dica!

Escrevi bastante, eu sei. Não consegui escrever menos do que isso, pois, caso o fizesse, a história seria mais resumida e vocês poderiam não compreender. Foi preciso falar à fundo dos personagens para entender o enredo da trama, senão ficaria sem sentido, uma vez que é por causa das histórias de vida deles que muitas coisas são justificadas em seus atos.

Beijos :)