Assim como eu disse que teria muito o que falar sobre o livro "As aventuras de Robinson Crusoé", de Daniel Defoe [veja o post aqui], eu também tenho muito o que falar sobre "On the Road", mesmo porque os dois se assemelham no fato de falarem sobre jovens procurando por novas experiências para achar o sentido de suas vidas. E não só por isso. O livro de Kerouac foi importante para uma geração e muitas histórias legais aconteceram por trás e por causa deste livro, desde o modo como ele foi escrito, passando pelas influências que deixou até a dificuldade encontrada para que fosse traduzido brilhantemente aqui no Brasil. É de uma importância sem tamanho.
Antes de começar a falar sobre as minhas impressões do livro, devo explicar um pouquinho sobre a geração beat que está tão presente nesta obra e que é a grande linha de pensamento. Aos que nunca ouviram falar, a Geração Beat foi um movimento de contracultura que questionava os valores, pensamentos e a política da sociedade americana pós-segunda guerra. Os intelectuais que lideraram esse movimento eram, em grande maioria, boêmios e nômades que prezavam pela liberdade. Deste movimento surgiram os hippies, os punks e muitos outros, e foi o carro chefe para o acontecimento do famosíssimo festival de Woodstock anos mais tarde, para vocês verem como foi um grande marco. Até mesmo os Beatles, surgidos após esse período, tem esse nome graças ao "beat" do movimento.
"On the Road - Pé na Estrada", escrito em 1951 por Jack Kerouac, fala sobre a história de Sal Paradise, um jovem escritor norte-americano que já estava cansado de sua vida pacata e decide viajar estrada a fora para experimentar novas coisas. O principal motivo de sua viagem é Dean Moriarty, um rapaz problemático, ávido pelo conhecimento e de espírito livre, que dá a Sal todas as sensações de liberdade que ele nunca teve. De carro eles atravessam os Estados Unidos, passando pela famosa Rota 66, conhecem pessoas dos mais diversos tipos e passam por experiências regadas a drogas, bebida, sexo e muito jazz, de uma maneira tão forte e visceral até então não vista.
O livro divide-se em cinco partes. A primeira é uma introdução a viagem principal, apresenta a maioria dos personagens e suas histórias e fala sobre a iniciativa de Sal em viajar, mostrando a primeira experiência dele ao se jogar na estrada cheio de sonhos com apenas cinquenta dólares no bolso (que, na época, ainda valia uma boa quantia) e algumas roupas numa sacola. As outras partes falam mais sobre a viagem com Dean e os episódios que aconteceram depois dela. Confesso que só entrei de cabeça na história a partir da parte 2, pois já começa com bem mais movimento do que a parte 1.
Os personagens são maravilhosos e, quando se unem a ideologias daquele período, se tornam ainda melhores e reais - o que são, de fato, pois a história foi baseada nos amigos e nas experiências de Jack Kerouac. Cada um, sendo secundário ou não, tem uma história de vida bem detalhada, que só uma pessoa que conviveu de verdade poderia saber e contar minuciosamente. Eles são um retrato do pensamento mais "moderno" da época pós-segunda guerra, pois ainda que vivam em uma sociedade cheia de puritanismo, eles pensam diferente e não estão nem aí para pudores. As personagens femininas mostram claramente esse lado. Marylou, mulher/amante de Dean, é o símbolo da não inocência feminina. Ela aplica golpes, é tão aventureira quanto qualquer homem e tem uma liberdade sexual muito incomum para as mulheres conservadoras da época. Aliás, todas as personagens femininas são fortes e de personalidade.
É quase impossível não se identificar com algum personagem quando eles buscam tanto pelo direito de ir e vir sem amarras morais. Sal é um rapaz mais centrado, um pouco conservador, as vezes até mesmo solitário, que quer entender as coisas ao seu redor. Dean, em contrapartida, é o lado mais insano, pois é um cara que vive intensamente e está andando de um lado para o outro sem saber onde quer chegar. Ele é daqueles que não se prende a ninguém, nem mesmo a um amigo ou as suas "mulheres" - Dean começa a história casado com Marylou, divorcia-se dela e casa-se com Camille, a quem ele trai sempre que viaja.
Incrível mesmo é ver o que a estrada representa e isso deixa as viagens ainda mais emocionantes de serem analisadas. Ela não mostra apenas a mudança de Sal e Dean à medida que eles conhecem novas pessoas, mas também mostra o lado sujo das pessoas e o que elas fazem para alcançar seus objetivos, é o grande lado podre do famoso sonho americano. As pessoas viajavam quilômetros e quilômetros atrás de uma condição de vida melhor, por igualdades de oportunidade e uma liberdade em diversas áreas. Aqui todos são retratados como normais, aqueles que falam palavrão, gírias, bebem, usam drogas, fazem sexo e levam uma vida boêmia, bem diferente do outro lado "certinho" da sociedade.
A linguagem, no entanto, não é uma das mais fáceis de acompanhar, não por se recheada de pensamentos complicados de entender, mas sim por ter sido construída com um fluxo diferente. Kerouac narra como fala, então é muito comum perceber que ele escrevia de acordo como suas ideias iam fluindo, algumas coisas vão correndo e, quando você se dá conta, já aconteceu muita história. Isso é uma das características mais fortes dos livros escritos no período do movimento beat. Não há aquela valorização pela escrita certinha, seguindo os padrões. Há uma certa espontaneidade, os parágrafos se perdem um no outro e são grandes - o que mostra que Kerouac não ligava muito para eles, preferia escrever sem interromper sua inspiração. Outra coisa que pode tornar a leitura um pouco mais devagar é que, como Sal fez muitas viagens durante meses, ele conhece várias pessoas e isso pode te deixar meio perdido com tantos personagens. Alguns entram na história e você nem percebe. Mas, à medida que a trama se desenrola, você se acostuma com a forma de narrar de Kerouac.
Também devo apontar um outro fato importante: a tradução. Só de imaginar toda a dificuldade que Eduardo Bueno, o tradutor, teve de fazer para conseguir que o livro fosse publicado aqui no Brasil, eu fico passada e percebo o quanto de dedicação ele colocou ali naquela tradução. Apesar de ele ter preferido deixar a forma original dos diálogos - os diálogos em inglês são feitos em aspas e não em travessões como no português -, eu vejo o quanto a tradução foi fiel. Cheguei a comparar tradução e original e a essência permaneceu, tão ágil e tocante quanto as palavras em inglês. Eduardo é um grande exemplo para os jovens que gostariam de ingressar nesta profissão.
Eu diria que "On the Road" é aquele tipo de livro que você deve ler aos pouquinhos e "degustar" o máximo que puder. E o que mais gostei foi de poder ver o lado real das pessoas num período tão cheio de mudanças.
Recentemente, a Editora L&PM - que detém os direitos da tradução hoje - lançou uma nova edição do livro, desta vez com a capa do filme e em tamanho convencional. Pois é, o livro ganhou finalmente uma adaptação para o cinema depois de mais de vinte anos que teve seus direitos comprados, com produção de Francis Coppola e direção do brasileiro Walter Salles - famoso por seus filmes rodados na estrada, como "Central do Brasil" e "Diários de Motocicleta".
Aos interessados, o filme estreia aqui no Brasil dia 13 de Julho, com Sam Riley (Sal Paradise), Garrett Hedlund (Dean Moriarty), Kristen Stewart (Marylou), Kirsten Dunst (Camille) e grande elenco. Dizem que a adaptação está muito boa e as críticas, até agora, foram positivas. Quero só ver, porque adaptar uma história tão longa, cheia de viagens e de uma grande importância como esta, não é tarefa fácil para ninguém, ainda mais quando muita gente espera por anos por este filme.
E, para terminar, transcreverei um dos mais célebres trechos do livro que consegue capturar meus pensamentos perfeitamente:
"Mas nessa época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop! - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos 'aaaaaaah!'" - Página 25.
É isso aí, espero que vocês tenham gostado!
Beijos :)





